Qui 07 Abr 2011

Entrevista com Paulão das Velhas Virgens

por Equipe Rockwave

Entrevista realizada pelo colunista Rockwave, Diogo Gregório.

Paulo de Carvalho, o Paulão das Velhas Virgens é um gênio. Mas um gênio, boêmio, vadio desses que seria normal cruzarmos por uma calçada caminhando para um bar qualquer. Um gênio pois criou um universo musical único, uma banda que pode rir e fazer graça de tudo e inclusive de si mesmo. Um Gênio, pois conseguiu se aliar a mentes tão capazes quanto a dele, para criar a incrível Velhas Virgens, a maior banda independente desse país. Maior, porque são 23 anos fazendo o som que bem entendem, sendo donos de sua própria gravadora, criando e inventando produtos para sobreviver nesse mundo onde se viver o que se sonha tem um preço que não pode ser pago somente com o custo do próprio suor. E independente, pois como todo gênio, Paulão não é compreendido, e talvez nem aspire tal coisa. A vista grossa e ignorante sobre seu trabalho tanto no Velhas Virgens quanto em todas os projetos que faz, sempre enxerga um humor forte que joga pra cima do tapete aquilo que os normais insistem em colocar pra debaixo. Mas para nossa sorte, esse senhor Paulão é cabeça dura, e vai continuar como ele mesmo diz "botando pra fuder pois meu pau é maior que o deles..." Senhores  citando Baudelaire  (outro gênio) é necessário estarmos sempre bêbados,, de vinho, poesia e virtude à vossa escolha. Portanto nos embriaguemos a partir de agora com esse primor de entrevista que o Gênio nos concedeu...

 

Cá Entre Nós - Qual a sensação de completar 23 anos de banda, fazendo o som que bem entendem sem se curvar a modismos ou a indústria?

Paulão - Orgulho puro. A gente que tá dentro ás vezes não saca a importância e a grandeza do que isso significa, mas o respeito e admiração dos fãs sempre nos lembram. Sinto falta do reconhecimento da imprensa. Mas ainda estão rolando os dados.


Cá Entre Nós - Das bandas nacionais que se dispuseram a trilhar o caminho de compor com humor, falar sobre diversão, o VV é a que tem a carreira mais longa, a que fator você atribui isso?

Paulão - Sinceridade. O que a gente canta tem muito a ver com a nossa própria vida, então não se esgota e sempre convence.


Cá Entre Nós - Olhando pelo retrovisor dessa longa carreira, existe algo que a VV ainda não atingiu e que ainda lhe incomoda?

Paulão - Muita coisa. Reconhecimento da imprensa, shows no exterior.


Cá Entre Nós - Sobre o Ninguém Beija Como as Lésbicas, em plena época de morte da indústria fonográfica, onde os artistas estão preocupados em voltar a era dos singles e das canções vendidas individuais na internet, vocês lançam uma ópera rock, um álbum que faz muito mais sentido quando ouvido inteiro. É mais uma prova que a VV ta pouco se importando pro mercado?

 

Paulão - Esse é um sonho antigo. Cavalo é roteirista de histórias em quadrinhos e eu de TV. Gostamos de contar histórias. Crescemos sob o signo de The Wall, Tommy e sempre pensamos em fazer uma coisa assim, guardadas as proporções, claro. Foi mais fácil que imaginávamos e acho que vamos seguir por este caminho mais um tempo. Queria contar uma história que se passasse no inferno. O artísta tem que seguir seu instinto e não o mercado. Se não cabe hoje, amanhã caberá. Vou citar humildemente Villa Lobos: "minhas obras são cartas á posteridade que escrevo sem esperar respostas". Fudido, né? No nosso caso são e-mails!


Cá Entre Nós - No NBCL temos a estréia de dois novos integrantes. Como se deu o processo da "aquisição" dos excelentes Roy Carlini e Juliana Kosso?

Paulão - É sempre por proximidade. O Roy já era amigo, assim como o pai dele, o LuisCarlini. Roy já tinha feito jams com a gente. A Ju eu conheci quando a antiga banda dela abriu um show nosso. Ela me impressionou com sua performance de palco. Depois fiz uma participação no disco desta mesma banda e quando a Lili, nossa vocalista anterior, precisou ser substituída em alguns shows a JU foi muito bem. Quando a Lili saiu de vez, a entrada da Ju foi quase que automática. É a melhor cantora que já tivemos...



Cá Entre Nós - Ainda sobre a Juliana, eu acompanho a banda há uns

12 anos e

 

sempre houve um sentimento por parte dos fãs de "viúvas" da Cláudia Lino, e agora o sentimento diminuiu consideradamente. A que você atribui isso?

Paulão - A Ju é do palco. Sabe fazer e domina o espaço como ninguém. As pessoassabem quem é que canta!

Cá Entre Nós - Essas mudanças de formação contribuem para a vitalidade da banda?

Paulão - Não necessariamente, mas neste caso sim. Caio saiu porque queria tocar outros sons e Roy entrou com a boa e velha pegada rock’n’roll que precisávamos. Já Lili tava a fim de cuidar de sua carreira de advogada e foi substituída por uma pessoa que é do ramo. Ambos entraram cheios de tesão e ideias e isso rejuvenesce e fortalece a banda!

Cá Entre Nós - Há uma letra de vocês, Paulão foi pro Bar em que Tuca profere: "...Paulão foi pro bar e disse que vai beber até morrer, disse que tá com o saco cheio de ter que se vender, de trabalhar de dia pra tocar na madruga,Paulão é um presidiário planejando a fuga...". Essa concorrência desleal da música, onde aquilo que é duvidoso e modista vende, enquanto grandes artistas e com excelente conteúdo ficam pra sempre underground, marginalizados no quesito midiático ainda lhe incomoda? 

Paulão -Seria muito bom poder me dedicar inteiramente a música. Mas nem sempre é possível fazer o que a gente quer. Assim é a vida! Sobre esta sensação de "injustiça", vou citar Rita Lee/ Paulo Coelho: "você sofre, se lamenta... e depois vai dormir"(Cartão Postal). A vida segue.

Cá Entre Nós - A internet ajudou muito pra romper com essa "marginalização", mas também cria um monte de instantaneidades, todo mundo é artista. Ela é o "remédio", ou somente uma forma diferente da "doença?"

Paulão - É o remédio. Pelo menos pra nós. Na Internet a gente tem tanto espaço e chance quanto qualquer superstar. O território é democrático e livre.

Cá Entre Nós - E o seu blog, acho que não só eu mas todos os fãs sentem muita saudade daquele espaço. Paulo de Carvalho vai encontrar uma brecha em sua conturbada e etílico agenda para reabrir aquele espaço?

Paulão - Tenho vontade, mas aquilo tomava 3 a 4 horas diárias do meu dia. E tenho que trabalhar como todo mundo, com horário pra entrar e pra sair, com obrigações. Sou casado, minha mulher está para dar a luz. A banda também toma meu tempo. Na atual estrutura não tenho como me ocupar de novo do blog como antes. Faço o que posso com o twitter!

Cá Entre Nós - No blog também você tinha falado sobre um novo disco do Cuelho de Alice, ótimo projeto paralelo que você pilotou com o Fábio Haddad e o Neto Botelho, e aí vai rolar mesmo?

Paulão - Era pra rolar este ano, mas a gravidez da minha esposa fez a coisa ser adiada. Deve sair ano que vem. Com mais misturada de rock pesado e ritmos brasileiros. Quero lançar este disco na Europa e fazer uma turnê por lá!


Cá Entre Nós - Não dá pra não fazer essa pergunta. Acompanho vocês há 12 anos e o VV, meio que conduziu minha formação musical. Estava entrando na adolescência quando ouvi o "Vocês não sabem como é bom aqui dentro", nem entendia de putaria e de bebida mais já cantarolava sons de vocês para a molecada no colégio. Como que vocês enxergam os fãs de vocês. Dá pra observar um padrão no meio dessa diversão que vocês pilotam?

Paulão - Adolescentes ou da terceira idade, falamos com sinceridade sobre coisas da vida e isso é sempre motivo de admiração e respeito. A mulecada quer se libertar do cerceamento próprio da idade. E os mais velhos querem lembrar como é ser livre.

A gente toca rock’n’roll, que pode não ser a preferência de todas as pessoas, mas sempre tem fãs dedicados.

 

Cá Entre Nós - Se essa civilização fosse acabar, e você tivesse que escolher um disco seu para ser conservado para a nova geração de seres humanos, qual disco seria?

Paulão - "Vocês não sabem como é bom aqui dentro"

Cá Entre Nós - O que dá pra adiantar sobre os próximos capítulos da Velhas Virgens? O que podemos esperar nos próximos meses...

Paulão - Cavalo está produzindo uma nova revista em quadrinhos tendo os integrantes da banda como personagens. Tenho um livro chamado "Na Terra das mulheres sem bunda" que espero que saia até o fim do ano. E antes do final de 2011 deveremos registrar e lançar um DVD com o show da turnê Ninguém Beija como as Lésbicas.
Cá Entre Nós - Pensemos hipoteticamente, se esse blog fosse o mais importante do mundo, que mensagem o grande Paulo de Carvalho, gostaria de deixar para a humanidade.

Paulão - Viva da melhor maneira possível, divirta-se, curta cada minuto, faça churrascos, vá a estádios ver seu time jogar, faça sexo e não encane: Distraídos Venceremos!

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