Ter 18 Mai 2010

em nome de Dio

por Equipe Rockwave

Texto de Fernando Tucori

eu não sou um dos maiores fãs de Dio, de modo que teria mais assunto calando a boca e ouvindo o mundo chorar do que dizendo "eu me lembro, sim, eu me lembro".

mas a verdade é que eu me lembro.

sim.

eu me lembro.

não lembro que ano foi, mas foi num desses festivais gigantescos, tipo monsters of rock, e o Dio veio.

tinha uma garota que fazia faculdade comigo que era doente pelo Dio.

Não lembro direito do que aconteceu com ela porque ela não era exatamente minha amiga - era mais próxima de amigos meus. Foi naquela época que eu estava botando meu pé pra fora da faculdade.

O que eu lembro é de estar presente enquanto os meus amigos, em torno daquelas mesas brancas da cantina da faculdade, comentavam o que havia acontecido.

Parece que ela foi até o hotel onde o Dio estava hospedado, sem pretensão nenhuma de encontrar o cara e ela não tinha nem cacoete (nem atributos físicos) para ser groupie. O que ela queria era só estar lá quando o Dio passasse.

O povo dizia que, antes de ir para o hotel, ela não tinha comido nada na faculdade. As amigas dela diziam que ela andava com nóia de emagrecer e, por isso, não comia de jeito nenhum.

Aconteceu que, quando o Dio chegou, a molecada avançou pra cima dela, tava um puta sol e não foi nem capaz de saber se quem estava vindo era o dio mesmo ou se era histeria com roadies ou alguém de alguma outra banda.

E era o Dio mesmo.

Quando ele entrou no campo de visão dela, ela já não tinha mais visão nenhuma. Ia desabando no meio da molecada, com a cabeça no meio fio.

O que aconteceu em seguida ninguém sabe. A gente só podia ficar especulando a respeito. Como é que, quando ela abriu os olhos, estava deitada num sofá, fitando o teto do hall do hotel e a cabeça do próprio Dio entrou no seu campo de visão?

Ela apagou na rua e acendeu ali, debaixo da cabeça do Dio.

Era como se fosse um sonho, mas ela tinha certeza de que não teria a audácia de sonhar alguma coisa como aquela.

Ela estava num sofá branco, havia acabado de acordar e, ali, diante dela estava ronnie james dio perguntando se ela estava bem.

depois de uns segundos batendo os cílios como nadadeiras, pra chegar a superfície, ela fez o que qualquer pessoa nas condições dela fazia: chorou.

Dio riu dos rios que ela chorava porque ela não parou um minuto. Ele olhava em volta e perguntava em inglês o que tinha de fazer para que ela parasse de chorar.

Ele acomodava a cabeça dela no seu ombro e dava tapinhas nas costas dela, como se fosse um bebê. O apreço ao consolo fazia com que ela chorasse ainda mais e, num dado ponto, ela reconheceu envergonhada, que tinha molhado a camisa do Dio com suas lágrimas. E isso, evidentemente, rendeu ainda mais lágrimas.

Dio não arredou de lá. Ficou com ela o tempo todo até que ela pudesse controlar o choro por tempo o bastante para que se despedisse, se levantasse e sumisse dentro de um elevador.

Foi quando ele ficou em pé que ela viu o quanto Dio era baixinho e, pela primeira vez, sentiu vontade de parar de chorar. Porém, quando percebeu que sabia de uma coisa a respeito de Dio que ninguém poderia lhe tirar, ficou com vontade de chorar outra vez, mas só soluçou.

Naquela época não tinha myspace, não tinha facebook, twitter, orkut e nem nenhuma outra rede de relacionamentos. Era uma época em que, pra deixar um scrap pro seu ídolo, você tinha que escrever à mão e ir até lá, entregar pessoalmente.

Era um mundo em que todos eram distantes e, para ser próximo, implicava um esforço que as pessoas realmente geniais superavam sem esforço nenhum.

Foi naquele dia que me desvencilhei de todos os covers de Dio que já haviam me irritado em noites de tédio no Black Jack, com aquelas bandas furrecas de metal.

Na minha mente, ficou só o Dio original - um cara legal, de bom coração - que os imbecis imitavam, sem dar conta da parte mais genial dele: o senso de humor.

Valia mais a homenagem do Goldfinger, na cover de "Rio" (do Duran Duran), que imitava o cara cantando enquanto mudava a letra da canção original para "my name is Dio".

Tinha o senso de humor que todos aqueles vocalistas semicalvos fazendo gestinhos satânicos não tinham instrumentos para detectar.

O mesmo senso de humor distorcido que o Tenacious D representou na abertura do filme "The Pick Of Destiny".

Não há companhia melhor que Dio na época em que você luta contra dragões e cavaleiros.

Depois que a gente aprende que existe coisa pior que dragão e cavaleiro - existe câncer, por exemplo - o Dio deixa de fazer um sentido prático, mas não morre. Ele nunca morre.

Daí, quando acontece dele, de fato, morrer. A gente não tem só a morte dele pra chorar. A gente chora também a morte do fã de Dio que a gente um dia foi, num mundo de cavaleiros e dragões.

A gente choraria como a menina da história se não soubesse o que já sabe: o Dio nunca morre.

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