Ter 05 Jun 2007

Daniel Bernardinelli fala sobre Mídia Digital

por Equipe Rockwave

Daniel Bernardinelli fala sobre Mídia Digital


O Rockwave conversou com produtor Daniel Bernardinelli sobre mídia digital. Confira a opinião do produtor sobre como uma banda iniciante deve se inserir no mundo televisivo, o Youtube é um facilitador pras bandas independentes e se o próprio Youtube pode inibir as megas produções de videoclipes.

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1. Fale um pouco sobre como funciona a recepção, de uma banda iniciante, nos grandes canais de TV.

Daniel Bernardinelli:


Na verdade prefiro não rotular a banda como iniciante ou não, pois ela pode ter anos de estrada musical e ao mesmo tempo nenhum de mídia. Gosto de trabalhar com a idéia de música boa, material bom. Afinal não faria sentido fazer um clipe para uma música ‘sem qualidade’ ou conteúdo. Recentemente recebi o convite para participar do Comitê Nacional de Música Independente, que tem por objetivo reunir e dar força a essas bandas “iniciantes” ou independentes (como preferimos chamar). Particularmente, prefiro tratar o videoclipe como obra audiovisual. Mas nem sempre é isso o que acontece quando se grava um clipe. Mas esta já é uma outra questão que podemos retomar mais à frente.

Não tenho muita experiência pra falar sobre a recepção dos clipes para as emissoras, afinal eu acabo de produzir o meu primeiro clipe e o que sei é o procedimento padrão que todo produtor deve saber. Pelo menos no caso da MTV, ela só recebe os clipes em formato BETACAM. Isso, de certa forma, se torna uma pré-seleção dos vídeos. Quando eu tinha 15 anos (idade da garotada que inicia uma banda) eu não fazia a mínima idéia do que era o “formato Betacam”. Então como inserir o clipe? Isso já era (e ainda é) uma barreira. Ok, hoje em dia, com o advento da internet basta “googlar” o termo e você encontrará diversas produtoras que convertem seu clipe (caseiro ou não) para o formato exigido. Mas isso já tem um custo. E isso também não é nem de longe uma garantia de que seu clipe vai entrar na grade de programação da emissora.

Por isso afirmo que pra se fazer um clipe, a primeira coisa é ter uma boa música. Em segundo, deve ser tratado com o devido respeito de uma obra cinematográfica. Mesmo que seja um promocional com intenção de pulverizar a sua banda por aí. Há muito trabalho envolvido. Ou havia. Música boa, boa equipe, seriedade, igual a trabalho de qualidade. Acho que esse é o pré-requisito básico pras bandas independentes que pensam em divulgar seus clipes na telinha.

Outra questão é o “peso” da banda. Além dos amigos do colégio e da família, quem é que vai querer passar três minutos em frente à TV assistindo o clipe do Joãozinho, do Zequinha? No meio televisivo, o espectador espera informação. Ele quer ouvir uma historinha. Se a banda tiver algum tempo de carreira, algum destaque, isso já ajuda e muito.

As gravadoras costumam enviar seus clipes para as emissoras. Isso quando a produção dos programas de clipes não contata a gravadora pedindo os vídeos dos artistas daquela gravadora. A gravadora precisa vender o artista. A TV precisa de audiência. Mercado é mercado. Acho que, além das artimanhas de mercado, as outras dificuldades até se tornam banais. Com muita insistência e um bocado de sorte você pode ter seu clipe passando as três, quatro da madrugada na televisão.

E se você fez um clipe por fazer, então não se preocupe.

Esse assunto envolve mais do que a questão do suporte do clipe. Engloba Música, Cinema e Mercado.

O clipe hoje deixou de ser mera ferramenta de divulgação. Os diretores têm (e sempre tiveram) liberdade de influenciar no roteiro, pois deve ter uma imagem midiática de fácil assimilação, e sedução do público que o procura. Em sua maioria jovens.

Apesar da MTV afirmar que o os programas que exibem clipes não dão mais audiência e de jogá-los para a periferia da grade de programação, há outras emissoras que pensam diferente. Cito a MTV pelo pioneirismo, por disseminar e consolidar os 'gostos' musicais pra juventude. Hoje a emissora aposta num novo tipo de narrativa, mais televisiva do que audiovisual. Aposta nos roteiros, nas edições dos novos programas que pretendem manter a música como foco, mas trocando o formato do clipe pelas inovações exigidas pela nova geração. Na TV, a música não está exclusivamente no videoclipe. Esteve mas já não está mais. Prova disso é que em 2007, a premiação anual da MTV brasileira, o VMB (Vídeo Music Brasil) que trazia a premiação de clipes, diretores, escolha da audiência e outras categorias para clipe, esse ano elegeu apenas a categoria de “Melhor Clipe” e só. As outras premiações passaram a ser pra shows e outros itens ligados à música.

Quando outras emissoras decidiram entrar pro mercado do videoclipe, não imaginavam que iriam além. Iriam assumir e ocupar essa fatia do mercado. A MTV era a única a exibir clipes. Hoje não mais. Temos a Multishow, a PlayTv, a MixTv, e outros canais que exibem os trabalhos, mas ainda com a herança das artimanhas de mercado.

E não foram só os clipes (feitos com Mini-DV ou Hi-8) que mudaram. O mercado mudou, mudou o posicionamento das emissoras e sobretudo a forma com que a música é consumida pelos jovens.

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2. O YouTube se torna um facilitador nessa relação?

Daniel Bernardinelli:

Nos anos 80, o videocassete trouxe o cinema pra dentro das casas. Permitiu a reprodução de experiências cinematográficas nos lares. Assim como hoje o Youtube faz na internet. É como se tirasse os videoclipes da TV e passasse pro computador. Exibe a produção de uma de maneira íntima, residencial ou privativa. É a evolução natural da tecnologia, e da mídia. Não vejo isso como algo ruim, não dá pra condenar a internet ou o Youtube, pelo contrário. Isso abriu muitas portas, sem dúvida tornou-se um facilitador. Pros músicos independentes é muito difícil encontrar veículos e meios de divulgar seu trabalho. É o lema “tudo o que vier é lucro”.

O clipe nada mais é do que um filme curto (analógico ou digital). A essência do clipe é de ser representado e entendido facilmente. E abranger o maior número de pessoas, através dos estímulos que produz. Se a idéia da banda é a pulverização deste conteúdo para diversas plataformas, nada melhor do que a internet pra se fazer isso. O videoclipe não pertence mais à televisão, mas está diretamente ligado ao mundo digital e outros suportes de mídias e meios acabam atendendo melhor a demanda. A web neste caso passa a ser parte do próprio meio audiovisual, mas livre da linearidade encontrada em outros meios. Agora a TV deverá filtrar as novidades que vem da web pra poder apresentar a novidade à sua audiência. Esse 'filtro' é essencial, pois é sabido que a web é um bombardeio de informações. Ou seja, ainda há uma seleção dos clipes que são exibidos na TV, mas hoje isso ocorre de maneira diferente do que ocorria há poucos anos atrás

Mudou o mercado, mudou o consumo. Lembra do Napster? Do surgimento dos download free na web? Pois é. Foi uma revolução. Ou apenas uma evolução natural. Hoje, com o fenômeno MP3 onde o internauta baixa as músicas gratuitamente e distribui (compartilha) com outros usuários. Esses mesmos internautas vão consumir música por outros meios (suportes) como ringtones, MMS, etc. Tais tecnologias é que fazem da informação (e o acesso a ela) algo democrático e democratizado. Em mar revolto, cada barco tenta fugir pra um lugar... Por isso, cada meio procura maneiras de não perder audiência ou público consumidor.

E os clipes precisavam disso, de inovação. Extinguir os clichês, e fazer a coisa diferente.

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3. Dado o sucesso do site YouTube e a facilidade de se postar vídeos nele, você acredita que este nova mídia poderá interferir no mercado de videoclipe a ponto de desincentivar as mega produções?

Daniel Bernardinelli:


Antes, os diretores de clipes queriam virar diretores de cinema e TV. Isso ainda acontece, mas também hoje ocorre o contrário. Não são só os cineastas e diretores que não conseguem se inserir no mercado, mas profissionais de todas as áreas do mercado de entretenimento. E, além disso, quem não é da área quer ser diretor de clipe. Hoje todo garoto que sabe 1/3 das funções de uma câmera Hi-8 ou até de uma Mini-DV arrisca a produzir o vídeo da própria banda, ou da banda do vizinho. As produções caseiras (ou amadoras) aumentaram muito. De maneira superficial, diria que, com o Youtube, parece não haver tanta preocupação com a iconografia, com as referências e a estética do videoclipe enquanto produção cinematográfica. Por isso disse no começo que é importante se ter uma boa música, uma boa equipe de profissionais de audiovisual pra se realizar um trabalho de qualidade.

Mas novamente digo que isso não é culpa do Youtube ou da internet. Não só o mercado de videoclipe que foi afetado, mas também o cinematográfico e o publicitário. Com o surgimento de novas tecnologias e opções em equipamentos. Por exemplo, no clipe de “Apenas um dia” da banda Valderramas, optamos por usar uma câmera Panasonic HVX 200, que grava num cartão (descarregado direto na ilha de edição). Essa câmera permite ainda o efeito de cinema, ou seja, grava, com efeito, de 24p. Com isso, consegui enxugar o orçamento pulando as etapas de revelação, telecinagem, e colorização se fosse um rolo de negativo (16 ou 35mm) de cinema. Se pensarmos que só um rolo de filme custa em média R$600,00 e dura cerca de quatro minutos, economizamos no material e na revelação, fora os equipamentos pra se rodar em película. A diária de locação de uma câmera do porte da HVX-200 sai por volta de R$800,00. Portanto, só em equipamento reduzimos o orçamento em mais da metade (caso fosse feito em película de cinema). Nas produções cinematográficas, tudo é mais caro: o equipamento, o tratamento e o profissional.

Então o orçamento de clipes acabou despencando. Por conseqüência a verba também. Ninguém mais faz clipe com R$60.000,00. Não há mais necessidade de mega produções. A moda é digital, e o meio final é a web, o celular, o iPhone, e por aí vai.

Mas é válido frisar que a qualidade dos milhões de vídeos na internet tem que melhorar. Rapidamente. O aumento na demanda de clipes não pode representar diminuição na qualidade das produções. Há espaço pra todos. Mas até mesmo trabalhos de baixo (ou zero) orçamento precisam ser justificados. Senão nada faz sentido.

Daniel Bernardinelli, formado em Produção Cinematográfica, está atualmente à frente da produção da banda Valderramas onde também produziu o videoclipe de “Apenas um dia” com direção de Ricardo Spencer. Atuou na equipe da produção do programa “Music Clip” e “Cena MusicAll” do Canal ABC3. Além disso, mantém na internet o blog Coletivo UltraSônico-Visual [http://bernardinelli.blogspot.com].

 Créditos: Célia Regina Batista [grupo de pesquisa em Multimeios da Puc–SP]

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