Qua 06 Fev 2008

Uma aventura na Santa Cecília

por Fernando Tucori

E FOI ASSIM QUE COMEÇOU. Ela me falando que tava um friozinho gostoso lá fora enquanto eu pegava um capuccino de máquina.
Podia ter parado aí, mas foi adiante.
Lembro de ter olhado a capa de um jornal na entrada enquanto pensava se haveria um próximo movimento e a capa dizia "coragem" e ela disse que folgaria no dia seguinte. Perdi a chance de fingir um muxoxo e acabei sendo sincero. Rouco, baixo e sincero. Acho que as mulheres devem adorar esse tipo porque eu via aquele sorriso que eu tanto adorava crescer e crescer e crescer enquanto eu exibia minha postura estóica ante o fim das férias.
Restava pouco mais que açúcar no fundo do copinho de isopor, mas eu apoiava os cotovelos no balcão e fazia minha versão good-morning-sunshine de Humphrey Bogart. Um sorriso que não quer mostrar os dentes. Pra ele, um estilo, uma cicatriz e uma mágoa. Pra mim, uma boca pavimentada com dentes feios e só.
Um cigarro cairia bem com o capuccino, mas ela está aqui, de pé, de frente pra mim, piscando um sinal verde que eu não posso ignorar.
Pego outro capuccino e tudo que eu quero e estar de frente pro mar, fumando, tomando um capuccino e esperando D. Sebastião, o Maluco, voltar com sua esquadra perdida.
Acho que devo ter mencionado isso em voz alta, fora dos meus pensamentos, porque ela perguntou se poderia ir junto e eu, de pronto, respondi que sim, claro, e que seria bom porque teria mais coisa pra fazer do que esperar Dom Sebastião. Ela quis saber mais sobre Dom Sebastião e eu minimizei. Um português burro que caiu no mar e nunca mais voltou.
Não dava pra encher lingüiça sobre Dom Sebastião pensando no que eu estava pensando. E eu estava pensando numa praia, em Prumirim, que é de tombo. E ela. E eu. Os dois entrando no mar e uma onda vindo e descobrindo a parte de cima do biquíni dela. E ela me flagrando em pleno tremor de desejo contido, rijo súbito e me sorrindo de volta depois de ler meus dois monossilábicos pensamentos.
A diferença entre quando você sonha acordado e quando você sonha dormindo é, trocando em miúdos, esta: quando você sonha dormindo, quais são as chances de você acordar olhando praquilo com que você está sonhando? Mínimas.
Quando você sonha acordado, você corre esse risco. O risco de acordar, subitamente, olhando pro mesmo sorriso dos seus sonhos, com os mesmos dois monossilábicos pensamentos inevitavelmente lidos e de se perguntar se é sonho ou é realidade.
E de ficar com a resposta pra sempre entalada na garganta porque um maldito filho da puta entra no café com um 38 vagabundo em punho e manda a gente deitar no chão. Tudo bem que eu estava nervoso e tentava me convencer de que era impossível falhar, mas aquele cara não parecia nem um pouco tranqüilo e se fosse pra não falhar, seria melhor que quem não falhasse fosse ele.
Ela foi bárbara e, com uma paciência de mãe, ia dizendo pra ele que se acalmasse, que ninguém ia atrapalhar os planos dele e que tudo que a gente mais queria era colaborar com ele pra que ele colaborasse. Com medo dele não ter entendido, traduzi: "a gente quer é ficar vivo".
Ele respirou e disse a ela pra que abrisse a caixa registradora e que não olhasse pro rosto dele. Ela foi, de cabeça baixa e de costas, abriu a caixa. Usava um all-star marrom claro, rústico. Ele não deixou que ela deitasse outra vez, ordenou que eu levantasse e, num relance, vi que ele já não empunhava mais a arma. Usava uma camiseta azul, da mesma cor que o uniforme do café e estava tranqüilo. Um homem com um plano. O plano dele era trancar a gente no banheiro, passar a tarrafa na loja e fosse o que Deus quisesse.
Era uma porta de metal pesada aquela. Quando ela bateu, quase me mijei achando que tinha sido um tiro, ainda mais porque o banheiro era bem pequeno, como um "L" que, depois da curva fica a privada. A gente poderia ficar encostado na parede do corredor de entrada, antes da dobra do L, mas ali não era seguro. Vai que o cara pira e atira na porta?
Ela e eu fomos pra perto da privada. O cheiro era tão forte que todos os meus neurônios pareciam gritar a palavra  "EUCALIPTO!!" ao mesmo tempo um bilhão de vezes até cuspir um pulmão de neurônio.
Foi aí que a gente finalmente parou e bateu um olho no outro e se pegou percebendo compreendido antes mesmo de formular o pensamento, só no lance dos olhos mesmo.
A gente foi do "ainda bem" pro "graças a Deus", se abraçou e ela chorava e as lágrimas faziam os rostos da gente deslizar. Minha barba devia estar arranhando o rosto dela, mas ela parecia gostar, porque era ela que esfregava o rosto dela no meu.
Por instinto, passei um braço em torno da cintura dela e, com o outro, protetor, subi ao longo da coluna, pousando a mão na sua nuca descoberta. Ela estremeceu, mas não recuou. Meus dedos se enroscaram nos seus cabelos e ela – ou eu? – me mostrou seu caminho. Ela tinha um piercing na língua e, se alguma vez eu fiquei pensando o que me atrai em mulheres com lábios fortes, a resposta estava ali, na ponta da língua. Eu disse pra ela que nunca tinha beijado ninguém com piercing.
Ela perguntou se eu tinha achado bom e eu respondi que ainda não tinha certeza.
E aí, foi ladeira abaixo, com toda força, rumo ao infinito e além.
Sabe aquela coisa de subir nas paredes do banheiro se apoiando dos dois lados do corredor? Adorava brincar disso quando era criança e te juro que brincar disso com ela, depois de velho foi ainda melhor.
Quando alguém conseguiu abrir a porta – e isso, acho, deve ter sido umas quatro horas depois – a gente mal se agüentava em cima das pernas, tinha marcas por todo o corpo e gemia sem reclamar de nada em específico.
Sei que quando a gente fechou a loja e saiu pra rua, a Dona Mirtes, a velha que tudo sabe, disse baixinho pra sua dama de companhia: "Se a sióra visse o que essa menina gritava... era de cortar o coração!
Parecia que tavum matando ela".
Matando nada, tia.
Era justamente o contrário disso.
Justamente o contrário...

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